Após alguns minutos de busca silenciosa, Kael retirou um tomo antigo com capa escura e símbolos celestiais gravados em prata opaca.
O título foi surgindo lentamente:
"Crônicas da Primeira Luz e da Primeira Sombra."
Ariel sentiu seu coração acelerar.
"Este é... este é um livro do Alto Conselho Celestial."
"Então provavelmente contém algumas mentiras interessantes", comentou Kael.
Ao tocar na capa, ela sentiu um leve choque percorrer seus dedos.
"Está... reagindo a mim."
"Bom sinal."
Eles se sentaram próximos um do outro no chão, com o livro aberto entre eles.
As páginas se moveram sozinhas, revelando uma ilustração antiga.
Um ser alado com asas negras envolto em luz dourada e sombras vívidas.
O texto dizia:
"Asas pretas não são uma deformidade."
São a marca dos anjos nascidos com livre-arbítrio absoluto. Denominados por este autor como 'Anjos do Limiar'.
Nos tempos antigos, antes que o Céu se tornasse um reino de leis rígidas e obediência cega, existiam anjos capazes de escolher entre
luz e sombra.
Eles caminhavam entre mundos.
Eles mediaram conflitos.
Eles mantiveram o equilíbrio entre as forças opostas.
Mas eles eram considerados perigosos.
Eles questionaram as ordens.
Eles não se curvaram à hierarquia.
Eles pensaram por si mesmos.
Eles eram imprevisíveis.
Por essa razão, o próprio sistema celestial procurou apagá-los da existência — alguns foram eliminados, outros tiveram sua história reescrita, até que seus nomes se tornaram apenas um sussurro esquecido nas páginas proibidas.
O que restou foi o mito.
Asas pretas não simbolizam corrupção.
Eles simbolizam a liberdade."
Ariel sentiu a respiração falhar.
"Isso não pode ser real..."
"Mas isso explica muita coisa", murmurou Kael. Ele rapidamente folheou até a última página, os créditos. "Veja, parece que o autor deste livro era um antigo membro do Alto Conselho Celestial. Ele relatou tudo o que sabe neste livro."
"Preciso encontrar o anjo que escreveu este livro", disse Ariel com convicção.
"A essa altura, depois de escrever este livro em completa oposição à ACC, ele já deve ter a cabeça em uma estaca, bem em frente ao palácio do conselho, com uma plaquinha dizendo 'Não toleramos traidores'", comentou Kael.
Ariel sentiu um arrepio na espinha. Será que o conselho de Elarion seria mesmo capaz de fazer algo assim?
"Não entendo... Se executaram todos e não sobrou ninguém... Por que me deixaram viver?"
Kael respirou fundo, pensativo.
"Na minha humilde opinião, acho que eles podem ter lhe dado uma oportunidade única, criando-o bem para garantir que você não se tornasse como os anjos da antiga linhagem. Seus pais são importantes de alguma forma?"
"M-Meu pai é Arconte da Ordem Celestial."
"Não faço ideia do que esse cargo significa, mas... imagino que seja importante, e isso explica muita coisa. Seu pai deve ter usado sua influência no conselho para permitir que você vivesse."
Ariel sentiu os olhos arderem.
Não era uma maldição. Nunca tinha sido.
Uma vida inteira de olhares de reprovação, sussurros, medo — e agora aquelas palavras diziam exatamente o oposto.
Ela não foi um erro.
Ela era uma exceção.
Uma possibilidade que o próprio céu tentara apagar.
Kael observou o rosto dela em silêncio.
"Então..." ele murmurou. "Você não é um defeito. Você é um problema para o sistema."
Ela olhou para ele, surpresa.
E, pela primeira vez, ela não sentiu medo de quem ela era.
O silêncio na ala restrita parecia mais pesado do que qualquer período de confinamento.
Ariel fechou o livro com extremo cuidado, como se o simples toque pudesse apagar aquelas palavras de sua mente — ou torná-las ainda mais reais.
As asas pretas não foram um erro.
Não se tratava de uma deformidade.
Não foram um castigo divino.
Eles eram um legado.
Uma liberdade que o próprio Céu tentara sepultar.
Sem dizer uma palavra, Ariel deslizou o livro de volta para a prateleira escondida e se afastou. Seus passos eram rápidos, quase apressados demais para alguém que normalmente flutuava pelos corredores como uma pluma ao vento.
"Ariel..." Kael chamou baixinho.
Ela não respondeu.
Ela atravessou o portal da seção restrita e saiu para o corredor principal da biblioteca sem olhar para trás. Seus ombros estavam rígidos, suas asas recolhidas junto ao corpo, como se quisesse desaparecer em si mesma.
Kael hesitou por um instante — e então a seguiu.
"Ei!" Ele a alcançou perto de uma das janelas altas, onde a luz do pôr do sol filtrava em tons alaranjados. "Você não precisa fingir que está bem."
Ariel finalmente parou.
Seu olhar era distante, perdido em algo que só ela conseguia ver.
"Eles mentiram..." ela murmurou. "A minha vida inteira. Fizeram-me acreditar que eu era... defeituosa. Um risco. Um erro."
Sua voz falhou no final.
Kael cruzou os braços, desconfortável — não com ela, mas com o peso daquela dor que ele conhecia muito bem.
"Se isso serve de consolo... as autoridades mentem o tempo todo. Principalmente quando algo sai do controle delas."
Ela soltou uma risada curta e sem humor.
"Fácil para você dizer. Você nunca teve o seu próprio céu te rejeitado."
Ele a encarou por um instante.
"Você ficaria surpresa".
O silêncio entre eles não era vazio. Estava carregado de coisas não ditas.
Kael respirou fundo, escolhendo as palavras com mais cuidado do que jamais admitiria.
"Olha... se tudo isso for verdade... então você não é um erro. Você é exatamente o tipo de coisa que o mundo precisa. Alguém que escolhe por si mesma."
Ariel finalmente olhou para ele.
Seus olhos brilhavam — não com lágrimas ainda, mas com algo mais perigoso: dúvida misturada com esperança.
"E se isso me tornar um alvo?"
Kael deu de ombros, com aquele meio sorriso torto.
"Bem-vindo ao clube."
Por um instante, algo quase reconfortante nasceu ali.
Foi então que uma voz suave, porém incisiva, cortou o silêncio.
"AAAAAAAH! EU SABIA!" A voz de Lumi ecoou pela biblioteca.
Ariel virou-se de repente.
Lumi estava encostada em uma estante próxima, com os braços cruzados, seu olhar atento percorrendo-os como uma lâmina curiosa.
"Lumi!" ela sussurrou. "Isto é uma biblioteca!"
"Você desapareceu do dormitório. E Darius disse que Kael também sumiu." Ela ergueu uma sobrancelha. "Coincidência demais para o meu gosto."
Kael inclinou ligeiramente a cabeça, fingindo inocência.
"Estávamos ampliando nossos horizontes culturais."
"Na ala restrita?", retrucou Lumi secamente. "Você está corrompendo minha colega de quarto?"
"Eu estava tentando ensiná-la a fazer escolhas ruins com estilo", respondeu Kael ironicamente.
"Má influência. Eu gostava de você."
Ariel revirou os olhos.
Lumi suspirou lentamente, sua expressão mudando de ironia para algo mais sério.
"Sério, o que aconteceu?"
Ariel hesitou.
Seus dedos se fecharam em torno do tecido da própria manga.
"Eu... descobri coisas sobre mim. Coisas que talvez não devessem existir."
Lumi a observou por um longo segundo. Então, inesperadamente, deu um passo à frente e segurou firmemente as mãos de Ariel.
"Ei." A voz dela suavizou. "Você não está sozinho nisso. Seja lá o que for."
Kael desviou o olhar, fingindo não ver aquela troca íntima — mas secretamente aliviado.
Lumi lançou-lhe um olhar rápido.
"E você..." ela apontou com o queixo. "Você não a meteu em encrenca, né?"
Kael deu um leve sorriso.
"Tecnicamente... foi um problema compartilhado."
Lumi estreitou os olhos.
"Vou fingir que acredito em você."
"Foi um prazer ser acusado injustamente mais uma vez hoje." Ele sorriu com as mãos atrás das costas e deu alguns passos em direção à saída. "Até mais, asas negras e borboleta."
O apelido causou um leve desconforto em Ariel, algo entre irritação e curiosidade.
"Eu não sou uma borboleta! Eu sou uma fada, seu idiota!" Lumi gritou furiosa.
Mas o clima já havia mudado.
Algo havia sido quebrado naquela tarde.
E algo novo — perigoso e inevitável — acabara de nascer entre eles.
