O silêncio que se seguiu ao estalo do gelo foi quase doloroso. Não era o silêncio místico de uma barreira mágica, mas aquele silêncio pesado e abafado que só uma nevasca de verdade traz. O cheiro de ozônio e sangue que impregnava a floresta sumiu, substituído pelo aroma limpo, quase anestésico, do frio extremo.
Kratos exalou. O vapor de sua respiração subiu denso, misturando-se à fumaça que ainda escapava do corpo congelado de um dos vermes de Zouken. Ele olhou para baixo, fitando o Machado Leviatã em sua mão direita. Os nós de seus dedos estavam brancos, apertando o cabo de madeira rúnica com uma força desnecessária.
Havia um tremor sutil em seus braços. Não de fadiga, mas de contenção. O monstro grego, a fera que o Graal tentou escravizar com a lama, ainda arranhava as paredes de sua mente, exigindo sangue, exigindo que ele arrancasse a espinha de Kirei com as próprias mãos. Mas Kratos forçou o monstro a descer. Ele fechou os olhos por dois segundos, respirou fundo e, quando os abriu, o azul gélido de suas runas estava sob controle.
A poucos metros dali, Rin Tohsaka tentava se levantar. Suas mãos tremiam tanto que ela derrubou uma de suas joias na neve. Ela olhou para o chão: a grama da floresta de Einzbern havia sumido, soterrada por trinta centímetros de um gelo tão azul que parecia saído do fundo de um oceano.
"Saber...", Rin chamou, a voz saindo falha, os dentes batendo pelo frio repentino. "Você... você consegue se mexer?"
Arturia Pendragon estava de joelhos, usando a Excalibur como apoio para não cair. A armadura mágica da Rei dos Cavaleiros estava coberta por uma fina camada de geada. Ela olhava para Kratos não mais com a imponência de um Espírito Heroico, mas com o assombro de um soldado que acabou de ver a linha do horizonte mudar de lugar.
"Eu... sim, Rin", Saber respondeu, esforçando-se para ficar de pé. "Mas a mana nesta área... o próprio ar foi reescrito. Isso não é um Fantasma Nobre. É uma Reality Marble natural. Ele mudou a textura do mundo."
Kotomine Kirei, cujo sorriso sádico havia sumido pela primeira vez em anos, deu um passo para trás. O frio havia rachado o cálice negro em sua mão. A lama do Graal, que deveria ser uma maldição imparável, agora parecia apenas piche congelado e inofensivo sob os pés de Kratos.
Ao lado dele, o que restava do corpo de Matou Zouken — uma massa nojenta de insetos — estava literalmente se estilhaçando. Os vermes congelavam e explodiam como vidro sob o efeito do frio de Helheim.
"Monstro...", a voz de Zouken ecoou, fraca, vinda de um único inseto que tentava se arrastar para longe. "Você não devia existir... O registro do Trono não permite isso..."
Kratos não respondeu com um discurso. Ele deu um passo à frente. O peso de sua bota na neve ecoou como uma sentença.
Kirei, percebendo que a situação havia fugido completamente ao seu controle, agarrou o que restava da projeção de Zouken e recuou para as sombras da floresta profunda. Ele sabia que, contra aquela versão de Kratos, a força bruta de um mestre ou os truques da Igreja eram suicídio. Eles desapareceram na escuridão, deixando para trás apenas o rastro de neve pisada.
Kratos pensou em caçá-los. Seus instintos antigos gritavam para que ele não deixasse sobreviventes. Mas então, um som fraco chamou sua atenção.
Um gemido baixo.
Ilyasviel von Einzbern estava caídas na neve, abraçada às pernas gigantescas de Heracles. O Berserker grego não havia morrido, mas estava paralisado. O gelo rúnico havia subido por suas pernas de pedra, prendendo-o ao chão. Ele não rugia mais. O olhar insano de Heracles parecia nublado, exausto, fixo em Kratos.
A garotinha de cabelos brancos chorava silenciosamente, as mãos pequenas tentando raspar o gelo das pernas de seu servo. "Não... não apague, Berserker... por favor... não me deixe sozinha de novo..."
Kratos caminhou até eles. Saber levantou a espada de forma instintiva para intervir, mas Rin a segurou pelo ombro. "Espere", a maga sussurrou. "Olhe para ele."
O gigante pálido parou a três passos de Ilya. Ele olhou para a menina. O ódio sumiu de suas feições, substituído por uma melancolia profunda, quase dolorosa. Ele viu naquela criança a fragilidade de tudo o que ele passou a vida tentando proteger e falhou. Viu a inocência sendo usada como combustível para uma guerra de magos egoístas.
Kratos ajoelhou-se na neve. Para um homem do tamanho dele, o gesto parecia o colapso de uma torre, mas ele o fez com uma lentidão deliberada, para não assustá-la.
"Acabou, menina", disse Kratos. A voz não era mais o trovão apocalíptico de antes. Era áspera, grave, mas carregada de uma humanidade cansada. "Seu servo não vai morrer. O frio apenas o faz descansar."
Ilya olhou para cima, os olhos vermelhos arregalados de medo, as lágrimas congelando em suas bochechas. "Você... você vai nos matar?"
Kratos olhou para Heracles. O semideus grego encontrou o olhar do espartano. Naquele silêncio, houve um entendimento mútuo entre os dois maiores monstros da mitologia grega. Um entendimento que o Graal jamais conseguiria traduzir em status ou ranks. *Descanse, irmão*, o olhar de Kratos dizia. A sua contenda não é comigo.
"Não", Kratos respondeu à menina, levantando-se lentamente. "Eu não mato crianças. E não luto contra escravos. Leve o seu gigante embora daqui. Esconda-se. Esta guerra não pertence a você."
Com um leve movimento do Machado Leviatã, o gelo que prendia Heracles recuou o suficiente para que o gigante pudesse mover os braços. Heracles, em um raro momento de lucidez mítica, inclinou levemente a cabeça para Kratos — um gesto de respeito entre guerreiros — antes de pegar Ilya nos braços e saltar para as profundezas da floresta, desaparecendo no nevoeiro.
Kratos ficou sozinho no clareira por um momento, o vento gélido agitando seus ombros. Ele caminhou até o corpo de Ren. O jovem mago estava estirado na neve, a pele já pálida e sem vida, os olhos abertos fixos no céu cinzento de Fuyuki.
O espartano se inclinou e, com uma delicadeza que ninguém esperaria de mãos que já esmagaram deuses, fechou os olhos do rapaz. Ele não conhecia Ren por mais do que alguns dias. O garoto era arrogante, assustado e ambicioso, como a maioria dos mortais que Kratos conheceu. Mas ele era seu Mestre. E, no fim, foi apenas mais uma vida ceifada pelos caprichos de quem buscava o poder absoluto.
"Você mudou", uma voz ecoou de cima.
Kratos não precisou olhar para saber quem era. Archer (EMIYA) saltou de um galho alto, pousando sem fazer barulho na neve. Ele não tinha mais o arco em mãos. Seus olhos cinzentos avaliavam Kratos com uma mistura de respeito e uma profunda melancolia.
"Eu vi o seu registro ontem", disse Archer, caminhando lentamente pela neve. "O Trono dos Heróis guarda apenas a sua lenda na Grécia. O fantasma implacável que destruiu o Olimpo. Mas o homem que está aqui hoje... você não é aquele monstro."
Kratos guardou o Machado Leviatã nas costas. O silêncio voltou a reinar enquanto o gelo ao redor começava, muito lentamente, a derreter, transformando-se em uma névoa rasteira.
"O passado é uma corrente longa, arqueiro", Kratos disse, sem olhar para ele. "Nós a arrastamos, não importa o quão longe andemos. Mas nós escolhemos o que fazer com o peso."
Ele começou a caminhar em direção à saída da floresta, deixando os três Servos e Rin Tohsaka para trás.
"Para onde você vai?", Rin gritou, correndo alguns passos atrás dele. "Seu Mestre está morto! Sem um pacto, sua mana vai acabar em algumas horas! Você vai desaparecer!"
Kratos parou por um segundo. Ele olhou para a própria mão direita. Sem o vínculo de Ren, sua conexão com o mundo físico estava enfraquecendo. Ele sentia as bordas de sua existência começarem a oscilar como uma chama ao vento. Mas não havia medo em seu rosto. Havia apenas a determinação fria de quem já havia caminhado pelo próprio inferno e voltado a pé.
"O Graal acha que me trouxe aqui para ser uma arma", Kratos disse, a voz ecoando pela floresta que voltava a esquentar. "Mas eu conheço o cheiro de magia de sangue. Esse cálice... essa igreja... tudo isso precisa queimar. Se meu tempo é curto, então farei com que cada segundo conte."
Ele voltou a andar. Sua silhueta massiva foi gradualmente engolida pela névoa da floresta, deixando os sobreviventes com a nítida certeza de que a Guerra de Fuyuki havia acabado. O que restava agora era apenas a contagem regressiva para o dia em que o Matador de Deuses bateria à porta do Grande Graal.
