Cherreads

Chapter 2 - O que isso tudo tem a ver comigo?

04:59...

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05:00.... bip bip bip

O som do despertador analógico corta o silêncio. O jovem de cabelo preto e curto abre os olhos imediatamente. Ele levanta no instante em que o alarme para. O quarto é básico: cama impecável, uma escrivaninha de madeira com uma pilha de livros grossos e cadernos espalhados

​Ele caminha até o banheiro e retorna minutos depois, vestindo camisa social branca, calça preta e sapatos limpos. Em silêncio, ele senta à cadeira, organiza os cadernos e encara a tela do computador. O sol da manhã entra pela janela, mas ele não se distrai; mantém o foco total nos estudos para o exame de admissão da universidade.

​Mais tarde, ele desce para a sala, carregando um livro de preparação para o vestibular. Ele não desvia o olhar das páginas nem por um segundo enquanto se acomoda à mesa.

​— Sábado é a sua prova, não é? Está preparado? — disse uma voz ao lado da mesa.

​Uma mulher de cabelos longos e escuros, Uma blusa de tricô e um avental por cima, 

 Sim, está tudo bem.

​— Você acha que se sairá bem? — perguntou ela.

​— Hmm, acho que sim — disse o jovem ao tomar um gole de café, ainda com os olhos fixos no livro.

​Ele se levanta, despede-se da mulher, pega a bolsa e sai de casa.

​Na rua, caminhando em direção à escola, o jovem lê um pequeno bloco de notas.

​— Já está estudando tão cedo assim, Nagai? — disse um dos jovens ao lado dele, acompanhado por outros dois.

​— É. Eu preciso aproveitar o tempo — respondeu, sem tirar os olhos do bloco de notas e continuando a andar, ignorando a presença deles para focar apenas no estudo.

​— Olha o nosso futuro médico! — disse outro do grupo.

​— Ficar entre os melhores no vestibular de medicina não é para qualquer um — completou o primeiro jovem.

​'Droga... por que eles têm que ser tão sarcásticos? Eu só estou me esforçando para ser alguém decente, qual é o problema nisso?' — pensou Nagai.

Eles continuam andando por mais um tempo até passarem em frente a um mercadinho. Do outro lado da rua, um rapaz com aeu cabelo loiro em cima e preto nas later para de comer o lanche e de beber o suco ao avistar o grupo. Ele olha diretamente para Nagai, como se esperasse um reconhecimento.

​Um dos amigos de Nagai nota a troca de olhares e pergunta:

​— Você conhece aquele cara ali?

​Nagai olha de relance. Por um milésimo de segundo, um breve desconforto cruza seu rosto, mas ele desvia o olhar imediatamente para o bloco de notas.

​— Não. Nunca vi esse cara na vida — responde Nagai, com um pouco de desconforto e vergonha. — Que cara estranho.

​— "Estranho" é pouco — comentou o primeiro amigo, rindo.

​Do outro lado, o rapaz observa que Nagai não esboçou qualquer sinal de reconhecimento e nem olhou de volta. Sem mudar a expressão, ele apenas volta a comer o lanche, agindo como se não tivesse visto ninguém.

​Nagai não desvia mais o olhar de suas anotações, seguindo em frente com o grupo, focado apenas no estudo.

O quarto integrante do grupo, que até então estava calado, olhou para trás com desdém para o rapaz parado no mercadinho, que tinha o cabelo loiro no topo e preto nas laterais.

​— Aquele cara nem parece ser um estudante de verdade — disse o colega. — Ficar parado ali à toa enquanto a gente vai para a aula.

​Nagai mal levantou os olhos do bloco de notas, mantendo o passo firme.

​— Deixa para lá. A gente não tem nada a ver com isso — disse ele, com um tom seco que encerrou o assunto imediatamente.

​O grupo seguiu em frente. Minutos depois, o portão da escola surgiu no horizonte. O movimento era intenso; dezenas de alunos com uniformes idênticos, camisas sociais brancas, calças pretas e tênis pretos. passavam apressados, entrando no colégio para o início das aulas.

Ao entrarem na sala de aula, o burburinho de alunos tomou conta do ambiente. Nagai sentou-se em sua carteira, alinhou o estojo e abriu o livro didático.

​O professor entrou, bateu o livro na mesa e anunciou:

​— Abram na página 145. Hoje falaremos sobre a anatomia dos demônios híbridos e as lendas que os cercam.

​O colega ao lado de Nagai bufou, baixo o suficiente para apenas eles ouvirem:

​— Isso nem cai no vestibular. Por que estamos perdendo tempo com isso?

'​Então eu posso ignorar', pensou Nagai, voltando sua atenção para oa seu bloco de notas o encostando em cima di livro ignorando completamente o professor.

​O professor, que ouvia o murmúrio da turma no fundo da sala, comentou de forma genérica enquanto escrevia na lousa:

​— Sei que muitos acham que não cai na prova, mas, em termos de conhecimento geral, é sempre bom ter uma noção.

​Nagai nem se deu ao trabalho de olhar para a lousa. Ele apenas assentiu levemente, concentrado apenas no seu próprio material, mantendo a postura de quem não pretendia perder mais nenhum segundo com aquele assunto.

 Como vocês sabem, os demônios são movidos pelo medo. Quanto mais medo eles geram, mais fortes se tornam. Dizem por aí que eles não morrem de verdade, apenas retornam ao inferno para depois reencarnarem na Terra, mas não sabemos se isso é um fato comprovado ou apenas superstição. Além disso, a lista de demônios ativos no mundo é um mistério constante para a Segurança Pública.

​Enquanto a voz do professor ecoava pela sala, Nagai permanecia com a cabeça baixa. O bloco de notas estava posicionado estrategicamente ao lado do livro de física, e sua caneta corria freneticamente sobre o papel. Ele ignorava cada palavra sobre demônios, focando apenas em cálculos e resumos de matérias que realmente cairiam no exame de medicina.

O professor continuava a aula, agora com um tom mais sério, enquanto desenhava um diagrama na lousa:

​— Lembrem-se, um contrato com um demônio não é um simples acordo. É uma troca de valor. Vocês entregam algo de si, e eles fornecem o poder. É uma relação perigosa e, muitas vezes, fatal. Nunca subestimem a capacidade de destruição desses seres.

​Enquanto a explicação prosseguia, o primeiro colega, sentado à esquerda de Nagai, cutucou o rapaz que estava à frente. Ele tirou uma foto revelada, de bordas brancas, de dentro do caderno e a passou discretamente por baixo da mesa.

​O segundo colega pegou a foto e arregalou os olhos. Nela, um demônio de aparência grotesca aparecia contido por correntes pesadas, em uma sala com luzes intensas, claramente sofrendo algum tipo de experimento.

​— Você viu isso? — sussurrou o primeiro, com um brilho de excitação nos olhos. — Experimentos com demônios. Dizem que o governo está tentando descobrir como extrair o poder deles sem precisar de um pacto.

​O segundo colega olhou para a imagem, depois para o professor, e devolveu a foto com desdém:

​— Que bobagem. Isso deve ser falso, montagem de revista sensacionalista. Ninguém consegue prender um demônio assim, muito menos torturá-lo.

​Nagai, que estava logo ao lado, nem piscou. A conversa sobre fotos, tortura e contratos soava como idiotice para ele. Ele apenas virou a página do seu bloco de notas.

O professor parou a explicação e caminhou até o fundo da sala, pegando um cartaz antigo que estava encostado na parede. Ele o fixou no quadro com dois imãs. Era uma foto em preto e branco, granulada, mostrando um homem de meia-idade sentado em uma mesa de bar, com uma sombra distorcida projetada na parede atrás dele.

​— Olhem bem — disse o professor, batendo na imagem. — A maioria de vocês nem era nascida, e eu mesmo era apenas uma criança quando os contratos começaram a se tornar notícia.

​Ele apontou para o homem na foto.

​— Este foi um dos primeiros casos documentados. Chamavam ele de "O Homem que Nunca Sente Sede". O pacto dele? Simples e bobo. Ele deu ao demônio a capacidade de sentir o gosto de qualquer bebida. Em troca, ele nunca precisava beber água ou qualquer líquido para sobreviver. Parece útil, certo? Mas, com o tempo, o demônio passou a consumir não só a sede, mas a própria umidade do corpo dele. Ele terminou desidratado, virou uma múmia viva.

​A turma soltou murmúrios de espanto e risadas nervosas.

​— Isso é o que acontece quando se subestima o valor de uma troca — concluiu o professor, voltando para a lousa. — Vocês acham que é um jogo, mas é uma sentença.

​O professor continuava a aula, caminhando pela sala enquanto detalhava a história dos contratos. Ele citou nomes de figuras históricas e incidentes que aconteceram décadas atrás, em locais esquecidos. A voz dele era monótona, um zumbido constante que servia apenas como preenchimento no ambiente.

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​O sinal soou para o fim do período, e a agitação na sala cresceu. Nagai guardou seu material com a mesma precisão de sempre, alinhando tudo na mochila. Ele não esperou pelo grupo de colegas. Levantou-se, ignorou os convites para sair e saiu da sala em silêncio.

​O dia tinha sido longo, com uma sucessão de aulas monótonas e explicações sobre temas que, para ele, eram apenas ruído. Nagai atravessou o portão da escola sem desviar o olhar do caminho. Ele não seguiu a rota de casa. Seus passos o levaram para fora do centro, em direção ao cemitério a minutos dali.

​O local estava silencioso, quase vazio. Nagai caminhou entre os túmulos até chegar ao ponto que procurava. Ele parou diante da lápide onde o nome Eriko Nagai estava escrito. O ar ali parecia mais melancólico, mas sua expressão não mudou; ele mantinha o rosto sem expressão, como se estivesse apenas cumprindo uma tarefa pendente em sua agenda. Ele não demonstrou emoção. Não houve lágrimas, apenas um simples origami deixado sobre o túmulo.

​Ele se retirou devagar, mantendo a postura rígida, mas com um leve aperto na alça da bolsa que carregava nas mãos. Ao sair do cemitério, Nagai caminhava de cabeça baixa, murmurando para si mesmo em um tom quase inaudível:

​— Para ser uma pessoa decente, você tem que fazer só o que é necessário. Escolher só o que é necessário. O que não é essencial tem que ser jogado fora.

​Ele continuou andando, sem olhar para os lados, totalmente alheio ao mundo ao seu redor. Do outro lado da calçada, o trio de amigos que o acompanhara mais cedo na escola o avistou. O primeiro deles chamou por seu nome, gesticulando, mas Nagai não desviou o olhar do chão, completamente imerso em sua própria lógica.

​Ele chegou à faixa de pedestres. O sinal para os carros estava aberto, uma luz vermelha que Nagai sequer se deu ao trabalho de conferir. Ele deu o primeiro passo para o asfalto, ainda repetindo suas falas.

Imerso em seus próprios pensamentos um dono de um caminhão, sequer viu o vulto cruzar o sinal vermelho. Quando o Nagai surgiu na trajetória, não houve tempo para reação; apenas o estrondo seco do metal atingindo carne. O caminhão não parou no impacto. Ele arrastou Nagai por metros, com os pneus travando e gemendo contra o asfalto em um grito agudo de borracha queimada.

​O peso colossal do veículo não apenas o golpeou, mas o esmagou co. Força, deixando profundas e marcas negras de pneu que riscavam a rua até o ponto final. O caminhão balançou violentamente antes de estacionar, com o motor morrendo.

​O silêncio que se seguiu foi insuportável. Debaixo do chassi pesado, o corpo de Nagai jazia contorcido, estático em uma posição impossível. O sangue começou a escorrer, uma poça de sangue começou a espalhar rapidamente pelo rua, brilhando sob a luz do final de tarde. O vapor sibilava do radiador perfurado, o único som a acompanhar a poça que se formava ao redor de onde ele estava, imóvel.

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